terça-feira, 20 de junho de 2017

Acidentes de trabalho e suas causas - parte 1

Quando ocorre um acidente de trabalho, vêm à tona inúmeras discussões sobre as causas, mas também sobre responsabilidades e culpas.

É um conceito já consagrado, entre os que estudam o assunto, que devem prevalecer as análises cujo objetivo seja o de encontrar as causas e as medidas de prevenção para que elas não se repitam. Mas ainda há quem acredite que vai reduzir acidentes por meio de identificação e responsabilização de culpados.

Pensando nisso, decidi relembrar alguns autores que já identificavam a complexidade de um acidente e de sua análise, bem como a dificuldade de se encontrar as suas verdadeiras causas.

Para a análise dos acidentes e identificação de suas causas, o engenheiro Frank Bird Jr., em um capítulo de um livro publicado pelo NIOSH, em 1973, considerava o acidente como uma forma de contato com uma fonte de energia (elétrica, química, cinética, térmica etc.) acima do limite de resistência do corpo ou de uma estrutura; ou o contato com uma substância que interfere com o funcionamento normal do corpo humano. Para ele, todos os tipos de perdas (lesões pessoais, danos materiais, perdas de produção) têm três estágios: o pré-contato, o contato e o pós-contato (com uma fonte de energia ou substância). Essa abordagem permitiu a ele concluir que a prevenção de acidentes depende de um controle de energia, atuando nos três estágios do evento acidental, com uma concentração de esforços no estágio “pré-contato”. É nesse estágio que Frank Bird Jr. destacava a aplicação de medidas de controle através de projetos de engenharia:

A maioria das condições perigosas pode ser prevista ou antecipada nas etapas de projeto, compras, manutenção ou desenvolvimento de procedimentos da operação das instalações. Condições inseguras, tais como proteções e dispositivos inadequados, sistemas de sinalização e alarme inadequados, riscos de incêndio e explosão, espaço físico congestionado, iluminação inadequada ou ruído são bons exemplos das causas mais comuns de acidentes que podem ser prevenidas por medidas de engenharia no estágio de pré-contato do controle de acidentes. (BIRD JR., 1973, p. 686)

Essas medidas de engenharia, nesse estágio de pré-contato, podem ser consideradas como requisitos de projetos, instalações e equipamentos que incorporem conceitos de prevenção de acidentes. O professor Trevor Kletz, muitos anos depois, em 2001, também destacava que os esforços maiores para a prevenção deveriam estar nos projetos de engenharia:

[...] vamos de agora em diante aceitar que as pessoas são os componentes dos sistemas que nós projetamos que não podemos reprojetar ou modificar. Mas nós podemos projetar melhores bombas, compressores, colunas de destilação [...] (KLETZ, 2001, p. 3)

Em um livro publicado com dois outros autores, Frank Bird Jr. destaca que o caráter de imprevisibilidade associado à palavra “acidente” passa uma falsa ideia de uma situação incontrolável, dificultando tanto as análises de acidentes como a adoção das medidas de controle. Mesmo assim, 30 anos depois de seu artigo anteriormente mencionado, ele permanecia enfatizando que a prevenção dos acidentes devia estar centrada no controle da energia presente nos processos e não na recomendação de mais cuidado e atenção.

[...] aqueles que acreditam que a maioria dos acidentes são causados por descuido estão propensos a apoiar programas de punição ou de incentivo para que as pessoas sejam mais cuidadosas. Um resultado provável nesse caso é que os problemas relacionados aos acidentes sejam encobertos ao invés de resolvidos. (BIRD; GERMAIN; CLARK, 2003, p. 5)


Nessa mesma linha, reforçando o que já havia abordado em outro trecho, o engenheiro e professor Trevor Kletz se empenha em demonstrar a importância de uma ação de engenharia para a prevenção de acidentes:

Nós, como engenheiros, devemos esperar que as pessoas mudem sua forma de ser (física ou mental) para que se ajustem às instalações e procedimentos ou devemos projetar instalações e procedimentos que se ajustem às pessoas? (KLETZ, 2001, p. 9)


No Brasil, o professor Mário Vidal, da UFRJ, ao tratar da evolução conceitual da noção de acidente do trabalho, menciona que o significado etimológico do termo acidente, associado à ideia de acaso, não pode ser considerado sob o ponto de vista de uma abordagem científica.


Entre as várias concepções analisadas, ele considera que “um acidente é o resultado de todo um processo de trabalho que, nessa ocasião, mostra suas insuficiências a nível de projeto, de organização e de modus operandi” (VIDAL, 1989). Para ele, reconhecer essa noção de fenômeno complexo requer substituir a noção de responsabilidade ou culpa, entendendo o modelo teórico do acidente como “o resultado do efeito conjugado de uma série de fatores causais”. Por isso ele considera que qualquer ação pela prevenção de acidentes requer a disposição de conhecer e intervir no processo de trabalho.

Nessa mesma linha, o engenheiro francês Michel Llory, em seu livro dedicado aos acidentes industriais, enfatiza esse aspecto organizacional dos acidentes. Segundo ele, ainda que sejam diversas as causas diretas desses acidentes, todos eles têm uma dimensão organizacional, ou seja, as suas causas profundas devem ser buscadas para além das falhas técnicas e humanas que ocasionaram o acidente.

Portanto, uma organização que está buscando o aprendizado contínuo, deve se enxergar como a principal responsável pelos acidentes, assim como pelas ações de prevenção. Não há razão de se gastar tempo procurando culpados e tentar puni-los.

Aliás, as organizações que já implantaram um sistema de gestão de segurança e saúde no trabalho, devem ter compreendido que ele é um sistema construído com o objetivo da excelência. Para isso, ele requer a identificação e o tratamento das anomalias, e elas sempre estarão vinculadas a alguma falha desse sistema.

Na segunda parte deste artigo, vamos apresentar abordagens de outros autores sobre o tema da análise dos acidentes.
Referências bibliográficas:

BIRD, JR, F.E. Safety. In The industrial environment – its evaluation and control. Chapter
47. Cincinnati, Ohio: National Institute of Occupational Health and Safety, 1973.

BIRD, JR, F. E.; GERMAIN, G. L.; CLARK, M. D. Practical loss control leadership. 3. ed.
Atlanta: Det Norske Veritas, 2003.

KLETZ, T. An engineer view of human error. 3 rd. ed. Rugby, Warwicchshire, UK: Institution of Chemical Engineers (IChemE), 2001.

VIDAL, M. A evolução conceitual da noção de acidente do trabalho: Consequências metodológicas sobre o diagnóstico de segurança. Cadernos DEP nº 13. Departamento de Engenharia de Produção da UFSCar. São Carlos (SP): Universidade Federal de São Carlos, 1989.

LLORY, M. Acidentes Industriais – O custo do silêncio. Rio de Janeiro: Multimais, 1999.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Prevenção de Acidentes com Eletricidade repercute na imprensa

O lançamento do Anuário Estatístico de Acidentes de Origem Elétrica, editado pela Abracopel, e da pesquisa intitulada Raio X das Instalações Elétricas Brasileiras, publicada pelo Programa Casa Segura, foram divulgados aqui neste blog, no início do mês de maio.

Contendo fatos e dados apresentados de forma clara e objetiva, esses documentos são extremamente úteis, não só para os profissionais que atuam pela prevenção de acidentes, mas também para a imprensa,  que obtém por seu intermédio alguns insumos para informar de maneira prática e objetiva.


Voltei ao tema, pois fui convidado a representar a Abracopel em um debate promovido pelo Canal Futura, e percebi que o interesse do programa pelo tema da segurança em eletricidade e da prevenção dos acidentes, surgiu em função das informações contidas nesses documentos.


Os acidentes domésticos geram enorme interesse por parte da sociedade, assim como as medidas de prevenção. E por isso, é um assunto recorrente na imprensa. Ainda mais em programas de televisão, pois a abrangência de acidentes ocorridos dentro de casa é muito maior e portanto o assunto está mais próximo da realidade dos telespectadores. Soma-se a isso o fato de esses acidentes alcançarem números elevados, fazendo vítimas fatais, sejam eles causados por choque elétrico ou por incêndios.

Se você tem interesse neste assunto, conheça melhor a Abracopel, sua programação de eventos e seus materiais educativos e de informação técnica.

Convido você a assistir agora ao programa Conexão, onde tivemos a oportunidade de discutir o assunto de forma simples e objetiva, com uma linguagem menos técnica e mais voltada ao tipo de público atingido pela programação de um canal de televisão.


O programa Conexão está disponível na versão web do Canal Futura, chamado Futura Play. E também no YouTube, que você pode conferir logo a seguir:





Saiba como evitar acidentes com eletricidade - Programa Conexão - 13/06/2017

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Dia Mundial do Meio Ambiente 2017 - #EstouComANatureza


"Conectando pessoas à natureza". Este é o tema escolhido este ano para celebrar o Dia Mundial do Meio Ambiente (05 de junho), e há eventos programados em todo o mundo para reforçar o slogan #EstouComANatureza ou #WithNature.


De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP / PNUMA), a ideia central é impulsionar os esforços para a conservação do meio ambiente, transformando ações individuais em uma força coletiva que tenha um verdadeiro e duradouro legado de impacto positivo para o planeta. Um convite para que as pessoas procurem estar rodeadas pela beleza da natureza e redescubram a importância de cuidar do meio ambiente.

É uma outra forma de chamar a cada um de nós para uma reflexão de que estamos em um mesmo planeta, em nossa Casa Comum, expressão tão forte e significativa utilizada pelo Papa Francisco em sua carta aos cristãos (Encíclica), publicada em 2015.

Portanto, este nosso blog, que é uma publicação em defesa da vida saudável e segura, dentro e fora do trabalho, reproduz essa reflexão e esse chamado pela reconexão com a natureza.


#EstouComANatureza
#WithNature

A escolha do dia 5 de junho ocorreu em 1972, ou seja, há mais de 40 anos. Naquela ocasião foi publicado um Manifesto Ambiental, também conhecido como Declaração de Estocolmo, pois foi naquela cidade que se realizou a primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano. Essa conferência foi um marco e o manifesto serviu de base para inúmeros documentos editados desde aquela época.

Ao lado da comemoração deste dia, surge também uma preocupação adicional, ao se tomar conhecimento que os EUA decidiram sair do compromisso previamente firmado em 2015, por 195 países, no Acordo de Paris sobre as mudanças climáticas. Em declaração oficial, o Secretário Geral da ONU considerou que essa decisão é uma grande decepção para os esforços globais para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e promover a segurança global.

Por sua vez, o o diretor-executivo da ONU Meio Ambiente, Erik Solheim, emitiu um comunicado sobre essa decisão, destacando que ela não interromperá os esforços pelo clima:
“A decisão dos EUA de deixar o Acordo de Paris de forma alguma coloca um fim a esses esforços. China, Índia, União Europeia e outros já estão demonstrando forte liderança. Cento e noventa países estão mostrando forte determinação de trabalhar com eles para proteger esta e as futuras gerações.”
“Uma única decisão política não irá nos deter nestes esforços inigualáveis. A ONU Meio Ambiente pede que todas as partes redobrem seus esforços. Nós trabalharemos com todos que quiserem fazer diferença.”
#EstouComANatureza
#WithNature

Deixo com você este vídeo de pouco mais de um minuto, para sua reflexão sobre o cuidado com a nossa Casa Comum:



Para saber mais sobre este Dia Mundial do Meio Ambiente, selecionei algumas referências, além de publicações anteriores deste nosso blog:

A ONU e o meio ambiente:

Dia Mundial do Meio Ambiente 2016:

Dia Mundial do Meio Ambiente 2015:

Encíclica Laudato Si - Sobre o Cuidado da Casa Comum:

UNEP United Nations Environment Programme:

World Environment Day - Global: